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Clarice

O relato de Clarice aborda o caso de assédio de sua colega de sala e envolvimento coletivo da turma contra o professor abusador, no Colégio Master. Ela e suas amigas, no ano de 2018, aos 15 anos, tinham como professor o Fabrício. Adorado por muitos, costumava fazer brincadeiras de cunho sexual em sala de aula, sem nunca ter sido questionado pelo teor inadequado das piadas, como descreve a jovem. 

 

No entanto, em um dos momentos de brincadeira, sem que a turma pudesse perceber, Fabrício se aproximou do ouvido de uma das alunas e disse: “Próxima aula vem com outro sutiã, porque não to conseguindo me concentrar com esse”, enquanto apalpava seu seio. Posteriormente, em uma aula sobre feminismo, a jovem assediada sentiu a necessidade de compartilhar o ocorrido com a turma. Porém, o ano já estava acabando e foi resolvido deixar para trás o ocorrido, já que o professor não voltaria a lecionar para aquela turma no ano seguinte. 

 

No entanto, ao entrar no terceiro ano, em 2020, a turma de Clarice voltou a ter Fabrício como professor, o que ocasionou em extrema sensação de mal estar não apenas para ela, por empatia, como também para sua amiga. As alunas tinham dificuldade de prestar atenção e sensação de medo. Clarice também explica que a única maneira que encontravam de sentirem-se bem era saindo de sua aula, mesmo que tivessem as notas e o rendimento escolar prejudicado. A coordenadora da escola percebeu a movimentação incomum e questionou, nesse momento Clarice teve a autorização da amiga para denunciar o caso. 

 

Em resposta à denúncia, a mulher passou o caso para a coordenadora geral, que, ao ouvir o relato e a emoção com que Clarice o contava, questionou se a jovem tinha acompanhamento psicológico, ao afirmar que sim, respondeu “você deveria se preocupar mais com seu psicológico do que com o trauma dos outros”. E assim foi marcada uma reunião com o professor em questão, em que a jovem afirma que nada foi resolvido. 

 

Insatisfeitas com a falta de posicionamento do colégio, as garotas resolveram organizar um protesto com a turma em que ninguém participaria das brincadeiras ou responderia ao professor Fabrício. “Eu queria deixar ele tão desconfortável dando aula pra gente quanto as meninas sentiam dando aula pra ele”, explica Clarice sobre a motivação do protesto, que foi o primeiro a ser organizado pela turma. Logo, uma nova reunião foi agendada, desta vez com mais garotas, onde a coordenadora geral requisitou que a jovem assediada reencenasse a cena do acontecido, o que a deixou desconfortável.

 

Como uma segunda forma de protesto, a turma de Clarice, assim como todos as outras turmas de terceiros anos que também sabiam do caso, decidiram que nenhuma garota assistiria a aula deste professor. No meio da semana, iniciou-se a quarentena em consequência da pandemia de Covid-19, o que levou a aula a acontecer remotamente. Quando o professor entrou na aula, mais da metade dos alunos saíam. Em mais uma tentativa de afastar o professor, Clarice falou diretamente com o diretor do Master, que respondeu “Atire uma pedra quem nunca errou. As pessoas deviam olhar pros próprios erros antes de julgar os outros”.

 

Em uma nova reunião com a coordenação, dessa vez iniciada por um aluno não envolvido que acabou sabendo do caso, Clarice conta que o Fabrício entrou na chamada de vídeo, sem ela esperar, para relatar suas versões dos fatos. Segundo a jovem, o professor assumiu todas as ações, mas explicou ter se arrependido e pedido desculpa, e por esse motivo tudo deveria ser esquecido. “O que vocês precisam se preocupar agora é com o ENEM”, declarou o homem. O movimento foi tão grande que alcançou a mãe de Clarice, que optou por tirá-la do colégio, assim como outras cinco meninas que também saíram pelo mesmo motivo. 

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© 2021 KSB Gazette. Universidade de Fortaleza

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