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Fernanda

Aos 16 anos de idade, Fernanda estudava no Colégio Christus, sede Barão de Studart. Enquanto passava pelo corredor no intervalo entre as aulas, foi abordada por um homem, de aproximadamente 40 anos, que a avisou que seria seu professor no ano seguinte. A jovem não achou a atitude estranha, e, assim como avisado, ele veio a ser seu professor de química com o passar do ano.

Segundo Fernanda, o professor de química, Hugo, com brincadeiras supostamente inocentes e piadas de duplo sentido, aproveitava a posição de poder e “amigo dos alunos” para invadir o espaço pessoal das garotas. Ela conta como era o comportamento do professor em sala: “Na aula, ele ensinava os meninos como pegar as meninas, aí chamava as meninas para demonstrar”, e continuou, “Eu odiava quando eu fazia prova e ele era meu fiscal, ele ficava me apressando, alisava meu cabelo e cheirava. Era algo nojento”.

A jovem afirma também que não era a única a perceber o comportamento suspeito, que passava muitas vezes os limites do aceitável na relação de professor e aluna. De acordo com Fernanda, ele fazia comentários insinuosos, convidava para festas e respondia stories no Instagram. Suas amigas chegaram a questionar o que estava acontecendo, mas Fernanda não dava atenção às atitudes do professor.

No período da Copa do Mundo, em 2018, Fernanda compareceu a uma festa após o jogo, na qual conta que coincidentemente encontrou Hugo. “Ele me puxou, me chamando para dançar”, relata a garota, que afirma saber no momento que aquilo não era certo. Em resposta à rejeição da aluna, o professor respondeu “Deixa o clima rolar, deixa acontecer”, logo antes de tentar beijá-la. Fernanda saiu rapidamente, sem reação. A partir daquele momento, declara ter sentido medo de voltar para a escola e do que o professor poderia falar ou fazer.

No entanto, no dia seguinte, Fernanda recebeu dele uma mensagem: “Estava embriagado ontem”. Ela conta ter escolhido não contestar, por ele ser uma figura superior a ela na escola. Diferente do que ela esperava, Hugo não mudou seu comportamento e continuou agindo como antes. Já Fernanda passou a mudar suas ações, em que parou de sentar na frente da sala e passou a escolher o fundo, não participando mais da aula.

Ao ser perguntada se tinha consciência, na época, de que se tratava de um caso de assédio, Fernanda respondeu: “Mais ou menos. Não tinha noção do que era aquilo, sentia desconforto quando passava do limite, mas nunca externalizava. Talvez por medo”. A jovem afirma ter sentido culpa, perguntando-se o que poderia ter feito para evitar a situação: “Se eu não tivesse o cumprimentado na festa, seria diferente?”.

Com o início do exposed, as amigas a incentivaram a publicar sua história, e assim, muito nervosa, o fez. Porém, Fernanda não contava que sua denúncia teria 97 compartilhamentos e mais de 300 curtidas. Logo, muitas garotas - também vítimas do mesmo professor - começaram a buscá-la para prestar seus próprios depoimentos. “Até hoje recebo novos casos de meninas que contam suas situações com ele” declara a garota, que continua: "Queria ter colocado muito mais coisa. Acho que ele já sabia que ele viria à tona, ele tinha noção do caso dele. Assim que começou a exposição fui atrás do perfil dele, e já não tinha mais dados pessoais”.

Em certo ponto, o relato chegou até os pais da jovem, que a perguntaram se desejava continuar a denúncia com um Boletim de Ocorrência, mas optou não levar a frente. No entanto, com o objetivo de ajudar as garotas que ainda tinham Hugo como professor, Fernanda entrou em contato com todas as coordenações do Colégio Christus. “A coordenadora do terceiro ano não prestou nenhum apoio. Falei com vários coordenadores, todos deram respostas diferentes, mas nunca recebi nenhum retorno”.

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© 2021 KSB Gazette. Universidade de Fortaleza

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